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Erotides Romero Dantas Alencar

Psicóloga do Campus Parnaíba fala sobre a sua trajetória pessoal, profissional e do lançamento do livro “Bullying e Desempenho Escolar”
publicado: 31/07/2019 16h04 última modificação: 31/07/2019 16h14

1 - Conte-nos um pouco da sua trajetória pessoal. Como foi sua infância e adolescência?

Tenho tido uma vida de superações. Desde a infância tive muitos problemas de saúde, aos sete anos sofri um acidente de trânsito que me deixou muitas sequelas. Fui uma criança acima do peso e corpulenta e isso interferia no julgamento das pessoas em relação a mim, que desde cedo me fizeram compreender que ser gordo era um problema.

Na escola, não era incluída nas atividades esportivas e quando eu insistia, ouvia “lá vai uma bola atrás de outra bola”. Fui, com o tempo, acreditando nessa menos-valia até mesmo no que diz respeito aos relacionamentos amorosos quando ouvi de meu namorado, depois de já ter emagrecido, que “a maioria dos relacionamentos termina porque a mulher engorda”.

Antes de completar 15 anos, emagreci 11 kg em um mês, tive um princípio de anorexia, mas, sentia-me bem, estava realizada, parecia que assim me encaixaria e seria aceita por meus pares e pelos meus familiares. Essa ideia só se confirmava, pois, coincidentemente, depois que emagreci, fui eleita pela primeira vez como líder de turma, depois de muitos anos me candidatando.

Considero que sempre fui petulante. Então, sempre tinha uma resposta para não me paralisar diante das agressões, mas, percebo o quanto introjetei a crença na relação de obesidade e problema, e como isso me afetou e ainda afeta. Não me recordo se o bullying que sofri tenha afetado negativamente meu desempenho escolar. Desde muito cedo aprendi a me fortalecer diante das adversidades por mais dolorosas que fossem. Como meu marido me diz, aprendi a “amar com cicatrizes”.

2 - Fale sobre a época em que você fazia o curso de Psicologia?

Ingressei no turno noturno do Curso de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí em 2002. Desde o primeiro período até o último tive estágios. Durante a fase de Bacharelado a disciplina chamava-se Treinamento Profissional em Exercício; funcionava como estágio de observação de profissionais da psicologia em diversos campus de atuação: frequentei comunidades, hospitais, escolas, apae, asilos, empresas e hospitais psiquiátricos. Foram experiências valiosas. Entrar em contato com realidades pouco conhecidas por mim. Experimentar vivências diversas de atuação da psicologia me aproximava cada vez mais dela. Com quatro anos de curso concluí o Bacharelado em Psicologia.

Após o Bacharelado ainda tive um período de Licenciatura em Psicologia, um período de Estágio em cinco campos de atuação do psicólogo (Organizacional, Escolar, Hospitalar, Clínica e Comunitária) e um período de Estágio na área e abordagem de escolha profissional, no meu caso, escolhi a Clínica e a Gestalt. Ao todo foram cinco anos e meio de curso, cheio de vivências, dinâmicas e experiências profissionais enriquecedoras. Assim que concluí o Bacharelado, antes mesmo de me formar, ingressei na especialização em Ciências Criminais muito movida pela temática da violência e justiça. Conclui o curso superior e a especialização simultaneamente. Ambos trabalhos de conclusão de curso estavam ligados ao Bullying nas escolas. Palavras como compreensão, empatia, aceitação, resiliência, tolerância e muitas outras começaram a fazer parte de minha existência não apenas na teoria mas, em uma busca incansável de melhoramento pessoal. Aprendi com a psicologia a ter paciência e persistência. Foram anos maravilhosos!

3 - Como foi que você ingressou no IFPI?

Em 2007, estando no último período da universidade, fui aprovada no concurso público para auxiliar administrativo do Instituto Federal do Piauí, na cidade de Parnaíba. A primeira vez em que me vi longe da família, em uma nova cidade, ainda concluindo meu curso. Com muita dedicação consegui conciliar o estágio e as supervisões quinzenais em Teresina e assim em setembro de 2007 colei grau e me tornei por direito bacharel, licenciada e formada em psicologia. O fato de já estar empregada me proporcionava segurança frente a muitos colegas que a partir dali iriam enfrentar o mercado de trabalho mas, sentia-me incompleta, foi quando no final de 2008 prestei novo concurso e fui aprovada para o cargo de Psicóloga do Instituto Federal do Piauí da mesma cidade em que me encontrava e a partir deste momento me tornei de fato Psicóloga. De 2009 até o presente momento tenho sido a única psicóloga do campus Parnaíba.

Psicóloga Erotides Romero Dantas Alencar

4 - Por que o interesse em falar sobre o bullying no ambiente escolar?

O bullying foi tema de meus estudos desde o Trabalho de Conclusão de Curso na graduação em Psicologia, em 2007, intitulado “Bullying e Violência Moral: uma análise quali-quantitativa das escolas de Parnaíba”. Muito me interessava esse estudo, tendo em vista que era uma temática recente e com pouca produção bibliográfica na época. Logo em seguida, dei continuidade à pesquisa nesse tema, investigando crianças vítimas dessa forma de violência e potenciais futuros agressores, que originou no artigo de conclusão de minha Especialização em Ciências Criminais, intitulado “Bullying: quando a vítima se torna agressor”. Mais motivador ainda foi o fato de eu mesma ter sido vítima de bullying na infância e adolescência, tanto no ambiente escolar como familiar.

Em decorrência dos atendimentos psicológicos realizados junto aos estudantes também verificava o quanto alunos vítimas de bullying revelam, em geral, grande sofrimento psíquico, sentimentos de inadequação e incapacidade de sucesso escolar. Somando-se a isso, professores com frequência relatam desmotivação, indisciplina e baixo rendimento escolar das turmas. Por ter sido uma vítima de bullying, por verificar como a temática é recorrente e perceber que vítimas e agressores precisam ser ouvidos, foi que mais uma vez me debrucei sobre essa temática, com a perspectiva de ampliar o conhecimento e as discussões pelas dimensões alcançadas na atualidade. Por essas razões e por trabalhar com pessoas em processo de aprendizado e formação pessoal, que essa temática está tão presente em minha prática profissional e acadêmica.

Psicóloga Erotides Romero Dantas Alencar

5 - Fale como foi o desenvolvimento do seu livro “Bullying e Desempenho Escolar” até o lançamento do mesmo.

Esse livro foi originalmente redigido como dissertação de Mestrado em Educação, da Universidade Nove de Julho, defendida em março de 2018, sob a orientação da professora Elaine Teresinha Dal Mal Dias. A pesquisa teve como objetivo compreender, apoiando-se no pensamento complexo, como o fenômeno bullying se relaciona ao desempenho escolar. À vista disso e partindo das experiências de estudantes vítimas dessa violência em algum momento de sua trajetória de vida, verificou-se, sob o ponto de vista dos sujeitos entrevistados, como o bullying interfere no desempenho escolar. Para mim, compartilhar essa obra significa acima de tudo, contribuição social. A literatura especializada no assunto bullying, muitas vezes, se revela como manuais de detecção e prevenção do fenômeno. Definem-se conceitos, causas, consequências e os perfis de alunos alvos, agressores e espectadores, além de programas de prevenção. Pesquisar sobre o bullying, à luz do pensamento complexo, é procurar compreender esse fenômeno de uma forma crítica, questionando os resultados mutiladores, unidimensionais e reducionistas. É importante destacar que o bullying não é o único fator responsável pelo fracasso escolar e as dificuldades de aprendizagem, mas, desejou-se verificar de que forma ele pode impactar no desempenho dos estudantes vítimas do bullying escolar, já que as pesquisas trazem essa afirmação sem verificar o como ocorre.

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6 - Há algum projeto no Campus Parnaíba em conscientizar e combater o bullying no ambiente escolar?

São feitas atividades psicoeducativas em sala de aula. O foco é principalmente preventivo. Apresentamos a temática aos alunos, esclarecendo o que caracteriza de fato o fenômeno bullying, estimulamos a participação, a responsabilização por si mesmo e pelos outros, o diálogo, a escuta e a empatia. É necessário construir relações e contextos afetivamente significativos, desenvolver a reflexão crítica. A eficácia de programas antibullying somente acontecerá havendo o comprometimento total e a dedicação de todos: professores, direção, alunos, funcionários, pais e comunidade. Entre os principais valores que a escola deve cultivar e promover no mundo atual encontra-se o respeito à diferença, que pode ser traduzido como aceitação do pluralismo, da abertura à crítica, da realização do diálogo respeitoso e do debate das ideias.

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7 - Você tem algum projeto (extensão) sendo desenvolvido pelo setor de saúde do Campus Parnaíba?

O Setor de Saúde do campus possui um projeto intitulado Educação em Saúde que propõe a promover a saúde no espaço escolar por meio de atividades educativas que informem e motivem escolhas individuais mais saudáveis. Dessa forma, é realizado uma vez por mês conforme cronograma de atividades, a distribuição de folders e panfletos; apresentação de vídeos e imagens; orientação verbal dos servidores do setor de saúde e serviço social do campus sobre estilos de vida mais saudáveis e parcerias com os órgãos governamentais locais.

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8 - O que você gosta de fazer quando tem um tempo livre?

Difícil ter tempo livre quando se tem dois filhos pequenos e uma profissão que requer atualização constante. Mas, já que trabalho com adolescentes, sempre que posso, procuro me aproximar do universo juvenil contemporâneo, filmes, séries, músicas, jogos e o que mais que possa favorecer um contato mais autêntico com a mentalidade adolescente atual.

9 - O que o IFPI representa para você?

O IFPI para mim representa contribuição social. Oportunidade de oferecer meu trabalho para tantos jovens maravilhosos, cheios de esperança e sonhos e muitas vezes carentes de apoio, afeto, contato humano saudável. O IFPI é um meio para um fim, uma missão de vida. As oportunidades e recursos ofertados pela instituição, como por exemplo, o Minter em Educação do qual participei, favorecem e facilitam a concretização dessa missão e a torna ainda mais prazerosa, pelo sentimento de reconhecimento institucional desse trabalho prestado. Ao longo desses 12 anos de IFPI tive muitos aprendizados e posso dizer que me orgulho em fazer parte dessa instituição que proporciona histórias de sucesso e transformação social de alunos, pais e de nós, servidores.

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